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[Pergunta | Resposta]

Ainda a grafia de Rodolfo

[Pergunta] Constatei que o dicionário online da Porto Editora e [o da] Priberam apenas apresenta[m] como elegível o nome Rodolfo.

Uma pesquisa breve levou-me a constatar que não é unânime nem solidamente fundamentada esta opção, também subscrita em outros locais, como adiante explicito. 

Em O Grande Guia dos Nomes (Editora Alto Astral, 2013), surge Rodolfo com origem por via do germânico, apresentando contudo Rudolfo como variante.

Em The Penguin Book of Names for Australian Babies, surge Rudolph como tendo origem o germânico, mas apresentando as opções Rudolfo ou Rodolfo.

Por sua vez [numa resposta do Ciberdúvidas] (que tem prestado um inegável serviço comunitário) é sustentada a opção por "Rudolfo", sendo que, embora o senhor José Pedro Machado aconselhe a grafia com "o" [...], é efetivamente apresentada como origem Rudolph (alemão – origem por junção de dois termos de sentido Rad «conselheiro» + Wolf «lobo». Referindo J.M.C. a sua estupefação pelo facto de a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, da Editorial Verbo, escrever "Rudolfo" como o nome do conhecido lago africano. Quando numa pesquisa a designações a este lago, surge, na maior parte das vezes, a palavra grafada com u. Existindo inclusive a designação de Homo Rudolphensis para caracterizar o grupo dos ancestrais hominídeos que viveu entre 1,8 e 2,5 milhões de anos atrás no leste, sudeste e sul de África. Note-se que este lago se chama atualmente Turkana em referência à tribo mais relevante da área por deliberação do governo queniano em 1975. Anteriormente detinha a designação de «Lago Rudolfo» devido ao facto de em 1887-1888 os exploradores Von Höhnel e Samuel Teleki (primeiros europeus a avistar o lago) assim o designarem em homenagem ao seu mecenas e patrocinador da expedição, príncipe Rudolf von Habsburg-Lorraine da Austria (também patrono de Beethoven), que financiou a expedição.

Pergunto-me se na presença de um vasto caminho desde a antiguidade até um cenário atual onde coabitam as designações Rodolfo e "Rudolfo"  como é o caso do artigo de apoio da Infopédia - Adolfo Rudolfo da Costa Malheiro (oficial militar natural do Porto) - existe alguma razão solidamente fundamentada, para além da inclinação do senhor José Pedro Machado e de J.M.C. (o autor da resposta do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa), para que as editoras não apresentem, pelo menos como variante a opção "Rudolfo"?!

Quando assistimos à incorporação de termos como "fixe", "email", "online", "bué", "baril", "online", "garçom", "croissant"… nos dicionários de língua portuguesa, será admissível a exclusão sumária de "Rudolfo", de todos os Rudolfos (sequer como variante)?!…

Se não se encontrar uma solução equilibrada, as restantes renas, em solidariedade, este ano, não transportarão o Pai Natal. Logo, não haverá presentes para ninguém… :)

Nélson V. Carneiro :: :: Lisboa - Portugal

[Resposta] O que o consulente diz não tem em atenção que, quando a opção por um grafema é etimológica, não significa isso que se tenha de considerar a origem última de uma forma – no caso, talvez Rudolf. Pode também optar-se pela forma e pelos grafemas que, historicamente, documentam o processo de transmissão da forma: o critério de Rodolfo ter o é precisamente devido a este nome ser resultado da adaptação do francês Rodolphe, segundo José Pedro Machado. Sendo assim, o nome do príncipe alemão devia ser Rodolfo, à portuguesa, ou Rudolf, à alemã, e não "Rudolfo".

Acresce que José Joaquim Nunes (JJN) também escreve Rodolfo, sem mencionar a variante "Rudolfo" (cf. Revista Lusitana, 1936, p. 145). Mas acrescenta que «o seu uso entre nós é moderno» – observação que se pode conjugar com a hipótese de transmissão francesa, dado o ascendente cultural que o francês teve sobre o português até meados do século XX.

Por outro lado:

a) há muito tempo que se sabe que as assinaturas permitem manter certas soluções gráficas à margem da norma ortográfica – pode ser essa a situação que motivou a grafia "Rudolfo";

b) não está provado que a forma Rudolfo tenha coexistido com a forma Rodolfo «[n]um vasto caminho desde a antiguidade até um cenário atual», porque, além de o nome não parecer assim tão antigo em português (ver comentário de JJN), a invocação de uma forma do nome científico de uma espécie nada nos diz sobre a etimologia do nome Rodolfo (o latim científico não é o latim das etimologias do léxico comum e de muita da onomástica do português);

c) a maneira de legitimar Rudolfo é fundamentá-la pela força do uso, mas, sendo um nome conhecido, não parece que a variante com u seja assim seja tão frequente (não tem sido, mas a rena Rudolph pode levar pais e crianças a escrever Rudolfo), nem haverá mais Rudolfos do que Rodolfos;

d) a diferença entre a possível variação Rodolfo/Rudolfo não é bem da mesma ordem que os itens lexicais mencionados pelo consulente: "fixe", "email", "online", "bué", "baril", "online", "garçom", "croissant" são itens do léxico comum que surgiram para expressar ou referir novas formas de estar e novas realidades; com os nomes próprios, a perspetiva muda de figura, porque, apesar de haver margem para variação (os acordos ortográficos permitem-na, como já se disse), deve também ter-se em conta a história do nome.

Em suma, a forma "tradicional" (não muito, porque, afinal, o nome até é recente à escala histórica do português) é Rodolfo, e não "Rudolfo", que terá aparecido mais tarde certamente por analogia com o alemão Rudolf e o inglês Rudolph. Isto não significa que os cidadãos assim chamados não possam assinar "Rudolfo" por uma questão de história pessoal e de família. Mas não parece que, por enquanto, a variante (se o é de facto) "Rudolfo" deva figurar, por exemplo, num vocabulário ortográfico que abranja a onomástica. É o que se verifica no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora, o qual inclui formas onomásticas, em que a única forma registada é Rodolfo.

Espera-se que a rena Rudolph não fique assim tão dececionada, até porque, sendo quem é e vindo donde vem, tem todo o direito a usar o nome que entender... :)

Carlos Rocha :: 30/11/1999

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