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[Pergunta | Resposta]

Sobre modalidades

[Pergunta] Agradecia que me esclarecessem quanto à modalidade epistémica, se a há, nos seguintes enunciados:

«Ulisses era grego.»

«Ela tem 15 anos.»

«A caneta está estragada.»

Segundo observei em alguns espaços, estes enunciados são classificados como epistémicos (valor de certeza).

Contudo, segundo o meu entendimento de modalização, estas frases não estão modalizadas, ou seja, não incluem nenhum elemento modalizador, seja verbal, adverbial, adjetival, de pontuação, enfático ou outro.

Por serem frases assertivas, deverão ser consideradas modalizadas?

Por outro lado, aceitaria que se considerassem no domínio da modalidade alética, pois «o locutor refere-se ao valor de verdade das proposições» (citado de uma outra explicação encontrada aqui). Contudo, esta modalidade não é considerada no Dicionário Terminológico! Como fazer então?

Por fim, como classificam enunciados em que se emitem opiniões? Por exemplo:

«Duvido que estejas certo!»

Fátima Gomes :: Professora :: Braga, Portugal

[Resposta] As frases apresentadas na pergunta incluem um elemento modalizador, o próprio modo das formas verbais que nelas ocorrem.

O valor modal dessas frases está associado ao modo indicativo («era», «tem», «está»), mediante o qual o falante exprime a sua certeza relativamente ao conteúdo da frase que produz. Isto significa que a modalidade também se manifesta numa asserção, mesmo que não ocorra outra marca linguística a não ser o modo verbal. Assim, no caso das asserções, o modo indicativo marca o valor modal de certeza, que é um dos valores compreendidos na modalidade epistémica (o outro que é referido pelo Dicionário Terminológico DT — é o de probabilidade), sendo parafraseável por «Tenho a certeza de que Ulisses era grego»/«Ela tem 15 anos»/«A caneta está estragada» (cf. DT, B.6.4. Valor modal, Modalidade; ver também M.ª Olga Azeredo et al., Da Comunicação à Expressão — Gramática Prática de Português, Lisboa, Lisboa Editora, 2011, pp. 311/312, e Cristina Serôdio et al., Nova Gramática Didática de Português, Lisboa, Santillana-Constância, 2011, p. 232).

Quanto à modalidade alética, há de a consulente reparar que a pergunta e a resposta em questão sugerem um contexto universitário, em que se exige um grau de aprofundamento das matérias que o DT, destinado aos ensinos básico e secundário de Portugal, não tem de abranger (muito embora possa lançar pistas para ulterior pesquisa). Além disso, ao que sei, o termo modalidade alética não faz parte dos programas de Português do ensino básico e secundário, pelo que não vejo necessidade de o abordar nas aulas desses níveis. Mas, caso a consulente pretenda saber um pouco mais sobre este tema, poderá começar por consultar o artigo sobre modalidade alética, incluído no Dicionário de Termos Linguísticos (organizado por M.ª Francisca Xavier e M.ª Helena Mira Mateus), bem como o que se encontra na 4.ª edição de A Dictionary of Linguistics and Phonetics (Oxford, Blackwell Publishers, 1997), do conhecido linguista britânico David Crystal.

Quanto à classificação modal de enunciados em que se emitem opiniões, verifica-se que as gramáticas escolares atrás indicadas propõem uma tipologia que abrange, além da modalidade epistémica e da modalidade deôntica (ver Textos Relacionados), a modalidade apreciativa. Assinale-se que o DT não inclui o termo modalidade apreciativa, nem como entrada nem como termo ocorrente em verbete. Cabe ainda referir que, na análise semântica de «Duvido que estejas certo!», tem mais pertinência a modalidade epistémica, já que o locutor tem uma atitude de incerteza em relação ao conteúdo de uma asserção segundo a qual alguém está certo (parafraseável por «sobre saber se X está certo, não tenho a certeza»).

Para uma compreensão da modalidade em português, leia-se um artigo de síntese de Janete dos Santos Bessa Neves ("Estudos da modalidade: as tipologias de Campos", Cadernos WGT Ler Campos, 2009, págs. 31-36) a respeito dos estudos sobre modalidade da linguista portuguesa Maria Henriqueta Costa Campos.

Carlos Rocha :: 02/03/2012

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